Bernadette não nos enganou

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Uma investigação histórica sobre Lourdes

Tudo começou pouco antes das onze horas de uma nublada e fria quinta-feira, 11 de fevereiro, 154 anos atrás. A festa litúrgica de Santa Genoveva, padroeira de Paris e de toda a França.

 

“Le cachot” era uma antiga prisão da cidade de Lourdes, adaptada como residência e onde vivia de aluguel Bernadette e sua família

A um dado instante, no canto da sala escura e malcheirosa, Bernadette, sem escola porque não tinha dinheiro nem mesmo para os livros, voltando-se para a mamãe Louise, levantou os olhos e exclamou: “Meu Deus, não há mais lenha!”

E foi assim que três pequenas pobrezinhas saíram para o bosque da cidade querendo encontrar qualquer coisa que amenizasse o frio ou ajudasse na preparação da sopa. Uma hora depois, Bernadette foi repreendida pela irmã e também pela amiguinha, por ter perdido tempo rezando, ao invés de recolher galhos e ossos. Ela ficara de joelhos diante de uma gruta que nunca tinha visto antes, e, se dela tinha ouvido falar, era de forma desprezível: “refúgio de porcos”.

 

Missa na gruta das aparições em Lourdes. O lugar era chamado de “massabielle” que significa “pedra velha” no dialeto local. E antes de ficar famoso, também era conhecido como “refúgio de porcos”

Dos que estavam em Belém, na Judeia ocupada pelos romanos, quem poderia suspeitar que a história não só seria alterada, mas que seria dividida em um “antes” e “depois”, ao ver dois viajantes — a mulher grávida — em busca de abrigo para poderem descansar? E na França do imperador Napoleão III, quem iria desconfiar que, ao ver, na neblina invernal, três meninas entorpecidas na pobreza de seus trapos, usando tamancos de madeira, andando à beira de um riacho, rumo a uma gruta, bem ali acorreriam multidões cheias de fervor, movidas pela fé, pelos milagres, até se tornar o santuário mais famoso e popular do mundo?

 

Dominique Peyramale(1811–1877), o pároco de Lourdes à época das aparições

Os acontecimentos de Lourdes, para além dos enigmas que os envolvem, são, sobretudo, históricos. Amigos do jornal perguntam o que este lugar representa para mim. Digo logo que é um dos centros do meu pensamento e da minha pesquisa. Cheguei até a fazer um documentário de TV para a RAI (Radio e Televisão Italiana). Ao menos desta vez me converti a essa mídia que não me atrai. Escrevi o enredo e os textos, e eu mesmo o “estrelei”, seguindo o caminhão da trupe romana pelas estradas até a França. Queria que se chamasse Aquerò, “Aquela Coisa”, no dialeto usado por Bernadette para se referir à aparição.

 

 

Padre René Laurentin, grande estudioso das aparições

Rapidamente, fiz amizade com o Abade René Laurentin, depois de ter lido, anotado e admirado os vinte volumes densos dedicados aos eventos que começaram a partir daquele décimo primeiro dia de fevereiro.

Certamente não apenas eu, mas toda a catolicidade deve ser grata a este sacerdote, detetive, professor universitário comedido e obstinado, que dedicou grande parte da vida para trazer à luz todos os documentos do caso Bernadette. Ele recolheu, de maneira organizada e com perspicácia, todo o material sobre o qual qualquer historiador sempre deverá retornar. A Senhora saberá recompensá-lo como merece.

 

Corpo incorrupto de Santa Bernadette Soubirous, no convento de St. Gildard, Nevers, França

Fato é que, tantas vezes ia a Lourdes, e a Nevers, onde a santa aguarda a ressurreição, intacta, em sua caixa de vidro, tantas vezes escrevia sobre o assunto e vasculhava a biblioteca da Casa dos Capelães, que, no fim de 1994, o bispo do lugar pediu para que me mudasse para o prédio ao lado da gruta, atribuindo-me a função de chefe do escritório de imprensa do santuário. Havia o convite cordial e persuasivo do bispo, havia a disponibilidade, minha e de minha esposa, ela também grande devota mariana.

Se não encerrei minha carreira de cronista às margens do rio Gave, para nunca mais retornar, para ficar por ali mesmo, até o fim da vida, foi por um motivo um pouco triste que nunca contei. Tornei-me refém de pequenas manobras clericais, das quais hoje sorrio, sem rancor. Havia acabado de publicar uma entrevista com João Paulo II. Como agravante, entrevistei, anos antes, o prefeito do ex-Santo Ofício, segundo a lenda negra: o Panzer-Kardinal. E eu tinha outros livros de “intolerável” apologética. Foi o suficiente para que as autoridades “católicas esclarecidas”, espalhassem a notícia da minha mudança iminente. Recorreu-se a todo o tipo de pressão para que o Bispo de Tarbes e Lourdes repensasse sua decisão. Quem queria ter como porta-voz de um santuário alguém que admirava e até mesmo defendia com reportagens reacionárias a Ratzinger, o inquisidor? Quem queria ter alguém que levava a sério e acreditava nas aparições, ao invés de apenas as tolerar como manifestações anacrônicas de devoção popular, esperando que os católicos se convertessem pela simples e austera leitura da Escritura, como diria o calvinista Karl Barth, para quem qualquer Mariologia não seria nada mais do que um “câncer a ser estirpado”?

Mas não partiu do prelado a ideia de interromper aquele projeto. Eu mesmo percebi o mal-estar que causava entre o clérigos “abertos ao mundo”. Franceses, mas também italianos, belgas, holandeses, alemães. Essa situação impediria ou, pelo menos, dificultaria um trabalho construtivo. Além do mais, até meu amigo, professor Laurentin, conhecedor desse clima hostil, mascarado por trás da untuosidade clerical, fez-me perceber que seria mais proveitoso continuar com meu trabalho na Itália de repórter freelance e escritor. Renunciei à transferência aos Pirineus, mas não à continuação dos meus estudos e às minhas visitas, tanto que, num verão, Rosanna e eu alugamos, por um mês, a casa de um amigo diretor da Lourdes Magazine. Ele, por sua vez, pôde alugar uma casa na praia para passar as férias com a família numerosa.

 

Livro de Vittorio Messori sobre os acontecimentos em Lourdes, na versão em espanhol

Entrei naquela fase da vida em que se pode ver a linha de chegada. Por isso, decidi reunir um conjunto, o mais compacto e orgânico possível, de tudo o quanto aprendi nestes muitos anos de pesquisa. Se Deus quiser, é claro, no início do verão enviarei à Editora Mondadorium texto que terá como títuloBernadette não nos enganou. Subtítulo: “Uma investigação histórica sobre a veracidade de Lourdes”. O que sempre tem motivado minha reflexão é a provação por que passa a fé quando exposta à cultura moderna e pós-moderna, a possibilidade de continuar a crer, de persistir na convicção de que em Jesus, Deus mesmo se revelou.

 

Bernadette Soubirous (1844–1879)

Pareceu-me sempre muito claro que não foi por acaso que Lourdes nos foi dada no momento em que a ciência parecia tornar-se a nova religião que expulsava a antiga e na qual se lançavam as bases da época histórica que ainda vivemos. Quanto mais eu pensava e aprofundava no “caso Bernadette”, era cada vez mais evidente que aquela pequena-grande testemunha nos disse a verdade.

 

Última visita do Papa João Paulo II a Lourdes, em 14 de agosto de 2004

E a verdade é que existe um Criador, que entrou na história fazendo-se homem e entre os homens, nascido do corpo de uma mulher judia, chamada Maria. Também é verdade que a plenitude da sua revelação e a continuação da sua presença se dá na Igreja Católica. Aliás, nada é mais “católico” do que Lourdes, que confirmou um dogma papal, que teve a honra, única entre os santuários do mundo, de uma encíclica dedicada a si, assinada pelo Papa Pio XII, que entrou para o calendário litúrgico da Igreja universal, que era muito querida por todos os papas, desde Pio IX, até João Paulo II, o qual a tinha como meta de sua última viagem fora da Itália, e Bento XVI, que esteve presente no aniversário de 150 anos das aparições. Os milagres de cura física não são mais do que uma confirmação e um selo da verdade das aparições: se “Bernadette não nos enganou”, está disponível para todos nós a cura do espírito, que é a descoberta, ou a redescoberta, da fé.

Em suma, Lourdes dá um auxílio extraordinário para a apologética sólida: a história, aqui, se abre a um mistério que a razão confirma. Por que não aproveitar este grande dom, utilizando-o ao máximo?

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